Em 2023, o Brasil foi o primeiro país a adotar padrões internacionais de relatórios de sustentabilidade. Na visão de Marcio Alaor de Araujo, executivo do mercado financeiro, a medida marcou uma tendência que vai além das grandes companhias abertas. Por meio de bancos, investidores e grandes clientes, as práticas ambientais, sociais e de governança, conhecidas pela sigla ESG, chegam também às empresas médias, que precisam adotá-las de forma proporcional e sem discurso vazio.
Uma agenda que mudou de ritmo, mas não de direção
A regulação brasileira passou por ajustes. Em maio de 2026, a Comissão de Valores Mobiliários retirou a obrigatoriedade do relatório de sustentabilidade para companhias abertas, que passaria a valer a partir daquele ano, e manteve a adoção voluntária. A partir de 2027, porém, as companhias que optarem por não publicar o documento deverão justificar a decisão ao mercado.
A mudança reduziu a pressão regulatória imediata, mas não eliminou o interesse do mercado pelo tema. Investidores, financiadores e grandes compradores continuam avaliando riscos ambientais, trabalhistas e de governança em suas decisões. Para empresas médias, a principal pressão não vem da regulação, e sim das exigências de quem compra, empresta ou investe.
A pressão chega pela cadeia de fornecimento
Grandes companhias precisam prestar contas sobre os impactos de toda a sua cadeia de valor e passam a cobrar informações e práticas de seus fornecedores. Questionários sobre emissões, condições de trabalho, segurança e integridade tornaram-se comuns em processos de homologação. Empresas que não conseguem responder podem perder espaço em contratos relevantes.
Como indica Marcio Alaor de Araujo, o mesmo movimento ocorre no crédito. Bancos e fundos incluem critérios socioambientais na análise de risco, e linhas de financiamento vinculadas a metas de sustentabilidade costumam oferecer condições diferenciadas. Ter práticas organizadas e informações confiáveis pode, portanto, facilitar o acesso a recursos e reduzir custos financeiros.
ESG proporcional ao porte da empresa
Uma empresa média não precisa replicar estruturas de grandes corporações. O ponto de partida é identificar quais temas são realmente relevantes para o negócio, como consumo de energia em uma indústria, condições de trabalho em uma operação intensiva em mão de obra ou gestão de resíduos em atividades com impacto ambiental.

A partir do diagnóstico, é possível definir poucas metas, indicadores simples e responsáveis claros. Medir consumo de energia e água, acompanhar índices de acidentes, formalizar políticas de integridade e organizar a governança já representam avanços concretos, muitas vezes com retorno financeiro direto pela redução de custos e de riscos. O importante é começar pelo que é material para o negócio.
O risco do discurso vazio
Anunciar compromissos ambiciosos sem ações correspondentes, prática conhecida como greenwashing, pode gerar mais danos do que benefícios. Consumidores, investidores e a imprensa estão mais atentos a discrepâncias entre discurso e prática, e uma acusação de propaganda enganosa pode afetar a reputação de forma duradoura. Em alguns casos, também há riscos regulatórios e judiciais.
Segundo Marcio Alaor de Araujo, a comunicação sobre sustentabilidade deve partir de dados verificáveis e de resultados alcançados, e não de intenções genéricas. Divulgar avanços reais, mesmo modestos, transmite mais credibilidade do que metas grandiosas sem plano de execução, especialmente para um público cada vez mais capaz de identificar exageros.
ESG como parte da gestão
Quando bem aplicadas, as práticas de ESG deixam de ser um projeto paralelo e passam a integrar a gestão do negócio. Eficiência energética reduz custos, boas condições de trabalho diminuem a rotatividade e governança estruturada facilita o acesso a capital. Os benefícios aparecem tanto no resultado financeiro quanto na percepção de clientes e parceiros, que passam a enxergar a empresa como fornecedora confiável.
Como pontua Marcio Alaor de Araujo, empresas médias que se antecipam ao movimento ganham vantagem competitiva. Mesmo com o recuo da obrigatoriedade regulatória, a tendência de cobrança por parte do mercado permanece, e quem já tiver práticas consolidadas estará mais bem posicionado para disputar contratos, captar recursos e atrair profissionais.
